Custo de produção da maçã por hectare: o que entra e como calcular
Equipe Frutare
Conteúdo técnico baseado em fontes oficiais
9 min de leitura· Publicado em 27 de outubro de 2026· Atualizado em 28 de outubro de 2026

Quanto custa produzir um hectare de maçã
Produzir um hectare de maçã em Santa Catarina custa hoje, pelos levantamentos públicos, algo entre R$ 50 mil e R$ 77 mil por safra. A diferença depende de quem calcula, do que entra na conta e de quanto o pomar colhe. O estudo referencial mais recente da Epagri/Cepa, para a safra 2025/26, chegou a um custo operacional total de R$ 76,7 mil a R$ 77,2 mil por hectare, num pomar de Fuji e Gala que colhe 50 toneladas por hectare.
Esse número serve de régua, não de resposta. O custo do seu pomar depende de quanta mão de obra você usa, de quantas pulverizações a safra pediu, da idade do trator e do turbo e, principalmente, de quanto você colheu.
E tem um detalhe que pouca gente fala: custo por hectare, sozinho, engana. O que paga a conta é quanto custa cada quilo e em qual categoria ele saiu do packing. Neste post você vê o que entra no custo, o que os estudos de Epagri/Cepa, Conab e CNA/Campo Futuro mostram e um passo a passo para montar o custo da sua propriedade.
O que entra no custo de produção da maçã
Antes de comparar números, defina o que vai somar. Muita planilha de pomar soma só as notas de insumo e esquece boa parte do custo.
Custeio: o dinheiro que sai do bolso na safra
É o desembolso da safra, de uma poda à outra:
- Mão de obra: poda, raleio, colheita, tratos culturais, safristas, tratorista.
- Insumos: fungicidas, inseticidas, fertilizantes, calcário, raleantes, reguladores, adjuvantes.
- Máquinas: diesel, óleo, filtros, peças, pneus, conserto do turbo e da roçadeira.
- Outras despesas: energia, análise de solo e de folha, assistência técnica, seguro, embalagens e utensílios, transporte interno de bins.
- Despesas financeiras: juros do custeio e de financiamentos.
Mão de obra: o maior item da conta
Nos dados da Conab analisados pela Epagri/Cepa para São Joaquim, a mão de obra custou R$ 16.080 por hectare na safra 2023/24, ou 31,4% do custo total. No estudo mais recente com a mesma base, a participação subiu para 34,5% em 2025/26, com crescimento de 9,9% ao ano. Se a família trabalha no pomar, valorize essas horas como se fossem contratadas. Senão, o custo parece menor do que é.
Máquinas e diesel
Na mesma série da Conab, tratores e outras máquinas somaram R$ 5.555,56 por hectare em 2023/24 (10,9% do total). No referencial da Epagri/Cepa para 2025/26, só as pulverizações respondem por 13% do custo operacional efetivo. Quem não anota horímetro e litros de diesel por quadra não tem como saber quanto cada aplicação custou.
Depreciação: o custo que não sai do caixa este ano
Trator, turbo, roçadeira, galpão, tela antigranizo e o próprio pomar perdem valor a cada safra. Esse desgaste é custo, mesmo sem nota. A conta básica é: (valor de compra − valor de revenda no fim da vida útil) ÷ anos de uso. Na série da Conab, o custo fixo foi 14,1% do total em 2023/24, sendo 11,2% só de depreciações.
Custo de oportunidade: o que a terra e o capital renderiam
É quanto você ganharia se arrendasse a terra ou deixasse o dinheiro do custeio aplicado. Não sai do bolso, mas mostra se a maçã está pagando melhor do que as alternativas. A Conab chama essa parcela de renda dos fatores: 5,6% do custo total em 2023/24.
Operacional x total: três números diferentes
Os levantamentos costumam separar três níveis:
- Custo operacional efetivo (COE): o que você desembolsou na safra.
- Custo operacional total (COT): o COE mais depreciação e a mão de obra da família.
- Custo total (CT): o COT mais a remuneração da terra e do capital.
O painel do Campo Futuro (CNA) em São Joaquim, em 2021, mostra bem a diferença. O COE ficou em R$ 51.586,40 por hectare, o COT em R$ 64.408,24 e o CT em R$ 74.344,80. Com a maçã a R$ 1.525 por tonelada, o produtor cobria o desembolso com sobra de R$ 378,64 por tonelada, ficava R$ 93,71 positivo no operacional total e tinha prejuízo de R$ 127,11 por tonelada no custo total. Mesmo pomar, três respostas. Saber em qual nível você está olhando evita se enganar.
O que os levantamentos públicos mostram
Epagri/Cepa com dados da Conab (2015 a 2024)
O estudo da Epagri/Cepa sobre custos da maçã em SC entre 2015 e 2024, de Rogério Goulart Junior, usa os custos da Conab para São Joaquim, com produtividade de 42.500 kg por hectare. Na safra 2023/24:
| Conta | R$ por hectare | % do custo total |
|---|---|---|
| Despesas de custeio | 33.277,48 | 65,0% |
| Mão de obra (dentro do custeio) | 16.080,00 | 31,4% |
| Agrotóxicos (dentro do custeio) | 8.289,74 | 16,2% |
| Tratores e máquinas (dentro do custeio) | 5.555,56 | 10,9% |
| Fertilizantes (dentro do custeio) | 2.303,32 | 4,5% |
| Outras despesas | 4.663,35 | 9,1% |
| Despesas financeiras | 3.154,55 | 6,2% |
| Custo variável | 41.095,38 | 80,3% |
O autor resume que o custo "alterna próximo de R$ 50 mil por hectare". Pela participação do custo variável, o custo total fica perto de R$ 51,2 mil por hectare, cerca de R$ 1,20 por quilo (cálculo nosso). Entre as contas de custeio, as que mais subiram no período foram fertilizantes, agrotóxicos e juros.
Referencial Epagri/Cepa 2025/26 (painel em São Joaquim)
O estudo referencial da maleicultura catarinense foi montado com um painel de produtores, técnicos e pesquisadores em São Joaquim. A propriedade modal tem 3,5 hectares, Fuji e Gala, e produtividade de 50 mil kg por hectare. Os resultados para 2025/26:
- Custo operacional efetivo entre R$ 73.208,56 e R$ 73.689,39 por hectare.
- Custo operacional total entre R$ 76.732,23 e R$ 77.213,07 por hectare.
- Serviços mecânicos e mão de obra somam 57% do custo efetivo; insumos, 29%.
- Produtividade de nivelamento de 22.024,89 kg por hectare e preço de nivelamento de R$ 1.534,64 por tonelada, considerando a caixa de 18 kg entre R$ 62,71 e R$ 74,25.
Traduzindo: nesse pomar modelo, cada quilo custa cerca de R$ 1,53 no custo operacional total. Abaixo de 22 toneladas por hectare, a conta não fecha.
CNA/Campo Futuro em São Joaquim
Além dos números de 2021 citados acima, a CNA voltou a São Joaquim em agosto de 2024. O pomar modal desse painel tem 5 hectares, sem irrigação, 1.000 plantas por hectare, 60% Fuji e 40% Gala, e colheu 35 toneladas por hectare na última safra. A conclusão dos participantes: quem colhe mais tende a ter custo menor.
Por que os números não batem
| Levantamento | Safra | Produtividade | Custo por hectare | Custo por kg (cálculo) |
|---|---|---|---|---|
| Conab via Epagri/Cepa | 2023/24 | 42,5 t/ha | ~R$ 51,2 mil (total) | ~R$ 1,20 |
| Conab via Epagri/Cepa | 2025/26 | 42 t/ha | R$ 62.146,50 (total) | ~R$ 1,48 |
| Painel Epagri/Cepa | 2025/26 | 50 t/ha | R$ 76,7 a 77,2 mil (COT) | ~R$ 1,53 |
| CNA/Campo Futuro | 2021 | ~45 t/ha (implícita na receita) | R$ 74.344,80 (total) | ~R$ 1,65 |
Cada levantamento usa método, ano, preço de insumo e produtividade diferentes. Use os estudos para conferir se a sua conta está no mesmo ritmo e ver quais itens pesam mais. O custo que manda é o do seu pomar.
Como montar o custo de produção do seu pomar
Passo a passo
- Defina o período e a unidade. Uma safra completa, de uma poda à outra, e cada quadra como unidade. Pomar novo e pomar adulto não se misturam.
- Meça a área produtiva real. Hectare plantado de cada quadra, sem carreador e sem área de formação.
- Junte o desembolso por grupo. Notas de insumo, folha e diárias, diesel, manutenção, energia, juros. Separe por quadra sempre que possível.
- Rateie o que é comum. Diesel, administração e assistência técnica vão por área ou por hora de máquina em cada quadra.
- Calcule a depreciação. Liste trator, turbo, tela, galpão e o pomar, com valor e vida útil.
- Some o custo de oportunidade. Um valor de arrendamento da terra e um rendimento sobre o capital do custeio.
- Divida por hectare e por quilo colhido. É aqui que o número começa a fazer sentido.
Tabela de exemplo (ilustrativa)
Exemplo ilustrativo, com valores redondos inventados para mostrar a conta. Não é referência de mercado.
| Item | R$ por hectare |
|---|---|
| Mão de obra contratada (poda, raleio, colheita, tratos) | 21.000 |
| Insumos (defensivos, fertilizantes, raleantes) | 17.000 |
| Máquinas: diesel, manutenção e peças | 6.000 |
| Outras despesas (energia, análises, assistência, seguro) | 4.000 |
| Juros do custeio | 3.000 |
| Desembolso (COE) | 51.000 |
| Mão de obra da família (valorizada) | 6.000 |
| Depreciação (máquinas, tela, galpão, pomar) | 9.000 |
| Custo operacional total (COT) | 66.000 |
| Custo de oportunidade (terra e capital) | 9.000 |
| Custo total (CT) | 75.000 |
Com 50 toneladas por hectare, a conta fica: R$ 75.000 ÷ 50.000 kg = R$ 1,50 por quilo no custo total. O desembolso sozinho dá R$ 51.000 ÷ 50.000 = R$ 1,02 por quilo.
Agora imagine a mesma quadra com granizo ou fixação ruim, colhendo 35 toneladas. O custo cai pouco, porque poda, aplicações e depreciação acontecem igual. R$ 75.000 ÷ 35.000 kg = R$ 2,14 por quilo. O custo por hectare praticamente não mudou. O custo por quilo subiu 43%.
Custo por hectare sozinho engana
Primeiro problema: dois pomares com o mesmo custo por hectare podem ter custos por quilo muito diferentes, só pela produtividade.
O segundo problema está na venda. A maçã não sai do packing com um preço só. Cada categoria tem um valor, e a fruta de indústria pode nem pagar o próprio custo. Um pomar que gasta mais por hectare em raleio bem feito pode ter custo por quilo menor e, ainda por cima, mais fruta nas categorias que pagam melhor.
Por isso o custo por hectare é o ponto de partida, não o de chegada. A pergunta certa é: quanto custou cada quilo desta quadra, e quanto cada categoria pagou? É o tema do próximo post da série, sobre custo por quilo de maçã e classificação.
O que anotar para ter seu custo de produção
Checklist do que registrar durante a safra, por quadra:
- Área produtiva de cada quadra, variedade e idade do pomar.
- Mão de obra: quem trabalhou, em qual tarefa, quantas horas ou diárias, quanto custou.
- Cada aplicação: produto, quantidade usada e horas de trator. Escolha de produto, dose e intervalo de aplicação sempre conforme bula, registro no AGROFIT e receituário do engenheiro agrônomo responsável.
- Diesel: litros por abastecimento e horímetro.
- Manutenção de máquinas: peça, serviço, valor e data.
- Notas de insumo com data e valor.
- Juros e parcelas de financiamento da safra.
- Kg colhidos por quadra (bins × peso médio) e, depois, kg por categoria na liquidação.
Exemplo de áudio que você mandaria no fim do dia: "Hoje o Zé passou o turbo na quadra 4, gastou umas 3 horas, abasteci 60 litros de diesel antes." Com isso, a aplicação, as horas de máquina e o diesel daquela quadra já entram na conta.
Como a Frutare ajuda
A Frutare é gestão agrícola por áudio no WhatsApp, feita para produtor de maçã. Você conta o que fez no pomar por áudio, texto ou foto de nota fiscal, e a plataforma organiza por quadra, safra e operação. Antes de gravar, ela devolve a confirmação no WhatsApp para você conferir.
- Mão de obra: quem trabalhou, em quê, quantas horas e o custo por quadra.
- Insumos: consumo calculado pelas aplicações e custo por aplicação.
- Máquinas: horímetro, manutenção e tanque de diesel.
- Financeiro: custo por quilo por safra e por quadra, no painel web.
- Consulta por mensagem, como "quanto gastei na quadra 4 esse mês?".
Perguntas frequentes
Qual o custo de produção da maçã por hectare em SC?
Depende do método e da produtividade. O referencial da Epagri/Cepa para 2025/26 calculou custo operacional total de R$ 76,7 mil a R$ 77,2 mil por hectare para 50 t/ha. A série da Conab analisada pela Epagri/Cepa aponta custo total perto de R$ 50 mil a R$ 62 mil por hectare, com 42 a 42,5 t/ha.
O que é o Campo Futuro da maçã?
É o levantamento de custos de produção da CNA com o Senar, feito em painéis com produtores e técnicos em cada região. Em São Joaquim houve painéis pelo menos em agosto de 2021 e em agosto de 2024, com apoio do Sistema Faesc/Senar e do Sindicato Rural.
Qual a diferença entre custo operacional e custo total?
O custo operacional efetivo é o que sai do caixa. O operacional total soma depreciação e mão de obra da família. O custo total ainda inclui a remuneração da terra e do capital, o custo de oportunidade.
Qual item pesa mais no custo da maçã?
A mão de obra. Nos dados da Conab para São Joaquim, ela representou 31,4% do custo em 2023/24 e 34,5% em 2025/26. Depois vêm agrotóxicos e máquinas.
Preciso incluir a depreciação do pomar?
Sim. O pomar tem vida útil e custou para ser formado, assim como a tela e as máquinas. Sem depreciação, o custo parece menor e você não guarda dinheiro para renovar.
Como passar o custo por hectare para custo por quilo?
Divida o custo total da quadra pelos quilos colhidos nela. Com R$ 75 mil por hectare e 50 t/ha, o custo é R$ 1,50 por quilo (exemplo ilustrativo). Depois compare com o valor líquido de cada categoria na liquidação.
Foto de capa: Land O'Lakes, Inc. / Unsplash.
Fontes e referências
- Epagri/CepaAnálise de custos de produção de maçã em Santa Catarina entre 2015 e 2024
- Epagri/CepaAnálise de custo de produção referencial da maleicultura catarinense (safra 2025/26)
- Epagri/CepaEvolução dos indicadores econômicos de custos de produção da fruticultura em SC: maçã, banana e maracujá
- CNA/Campo Futuro (Portal do Agronegócio)Projeto Campo Futuro divulga resultados de horticultura e fruticultura (maçã em São Joaquim, 2021)
- CNAPainel do Campo Futuro levanta custos de produção da maçã em São Joaquim (2024)